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Terça-feira, 5 de Outubro de 2004
Álbum rosa
I
A nogueira quase assenta a copa, larga demais para caber num único olhar, sobre a curva do caminho que percorre a aldeia. É uma pálpebra descida sobre a inclinação da terra rosada, à beira do canal de água fria que corre cantando entredentes. Só girando a cabeça em ambas as direcções se alcança a extensão da árvore, generosa de verde, de sombra e de frutos.

J'aurais du te dire comme tu es beau quand nous étions lá-bas, à l'ombre du grand noyer.

Debaixo da nogueira existe um parque. Um parque de sombras extensas e recortadas, a escorrer ar fresco sobre os que se sentam no chão. Os frutos, ainda envolvidos na casca, estão ao alcance da mão e da boca. Fazemos silêncio. A nogueira abriga-nos do dia e dos insectos de ventre pesado. Os rapazes passam nos caminhos e medem o tempo que falta para a colheita.

On pourrait prendre tes yeux et ce cercle de lumière qu'ils forment avec ton sourire pour un signe. On le sent monter jusqu'à la nuque, comme si on plongeait la main dans le soleil.

O sabor das nozes verdes deixa-nos a língua áspera, e continuamos em silêncio. A esta distância posso apenas suspeitar do calor dos corpos. O tronco da árvore desdobra-se em mil e uma saídas possíveis para o dia.

II
O sono cansa os membros, e deles parte a fibra nervosa que agita os olhos. O mundo é ainda insuspeito para além da teia meio opaca. A crisálida sente, nesse preciso momento, que lhe rebentou da pele sobre o peito o primeiro seio (o direito), e é para ele que avança a mão. Confunde o mundo com o seu seio e toma-lhe a medida e a forma: redonda. Em volta há apenas o ar coado pela parede macia de seda. É quando o segundo seio brota que se dá a inevitável agitação. A escolha não é apenas entre uma e outra mão; voo algum poderá dividir-se entre dois mundos. Nesse momento começa a dissolver-se, irrecuperável, a película que lhe protege a visão. A mão abandona o seio, desiludida e confusa, cravando a unha ainda mole na cápsula morna que a luz do sol começa a dissolver do outro lado.

III
A sombra das nuvens passando sobre a montanha nua.
De novo a sombra das nuvens (outras) sobre a montanha nua (a mesma).
Uma nova paisagem.
Mais uma vez.
Uma nova paisagem.
Diferente, agora. As nuvens sobre a montanha.
Certas viagens pedem apenas o tempo de olhar e a imobilidade do corpo.
Reparem.

IV
Desenha-me um zimbro. Demoradamente, de forma a que a meio de cada traço já tenhas esquecido como foi que começaste e a sua forma prossiga como se não houvesse um caminho. Apenas no final te será dado ver a densidade e o excesso da matéria, e pensarás como pode uma tal árvore ter saído da tua mão seca.
publicado por AG às 03:25
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1 comentário:
De Anónimo a 10 de Outubro de 2004 às 18:20
que lindo!Tangas
(http://tangaslesbicas.blogs.sapo.pt)
(mailto:tangaslesbicas@sapo.pt)

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