Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2005
Um fruto é um fruto
São pinturas de
Nélia Caixinha na Galeria Galveias, em Lisboa.
São frutos. Frutos apenas, com a sua luz e a sua sombra, o seu lado de dentro e o seu lado de fora, o seu pousar sobre uma superfície. Maçãs, figos, peras, amêndoas.
Domingo, 30 de Janeiro de 2005
Rocha
Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2005
Google pesquisa video
O Google tem um novo serviço, ainda em fase beta, que indexa conteúdos de televisão.
Aqui.
Ainda menos, muito menos que isto (modo citação-tradução)
INVENTÁRIO
Este é o meu boné,
este o meu casaco,
aqui a lâmina da barba,
numa bolsa de linho.
Lata de conserva:
o meu prato, o meu copo,
na folha-de-flandres
risquei o meu nome.
Risquei-o com
este prego precioso
que escondo de
olhares cobiçosos.
Na bolsa do pão está
um par de meias de lã
e outras coisas, que
não revelo a ninguém,
assim serve-me à noite
como almofada.
Este cartão, aqui, fica
entre mim e a terra.
A mina de lápis
é aquilo de que mais gosto:
de dia escreve-me versos
que imaginei à noite.
Este é o meu bloco de notas,
este o meu pano de lona,
esta é a minha toalha,
este é o meu cordel.
(Inventur, de Günter Eich. Coloco, reticente, esta tradução, que é minha, porque há uma, creio que do João Barrento, que deve estar na Rosa do Mundo. Mas o dia é hoje, e não tenho a outra tradução à mão).
Terça-feira, 25 de Janeiro de 2005
Água muito nublada
Como é bom praticar natação e ser míope. Nas pistas ao lado, os homens são todos lindos.
Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005
Higiene diária
Comprei um jornal estrangeiro. Há nele um silêncio muito confortável e salubre sobre todos os factos e não-factos relacionados com o período eleitoralista pré-eleitoral português. Não há boatos, insinuações, referências abjectas à vida pessoal dos candidatos, dedos espetados, mãos na anca às portas de Belém, cartazes idiotas, comentários sem interesse a encher a primeira página, oportunismos de rebanho a ruminar a pequenez alheia. Não há ruído. Haverá, seguramente, o da política nacional do país de origem do jornal, mas esse eu não percebo, não me interessa, não leio. Fica um certo sentimento de culpa, semelhante ao que temos quando nos levantamos da mesa a meio de um jantar de família porque não aguentamos mais as pequenas discussões e atritos domésticos. Não mais que isso. Passa num instante.
Domingo, 23 de Janeiro de 2005
Para quem não tem magnólias


"Ontem floriu neste lugar a grande amendoeira.
Que idade tinha eu ontem (ou no mês passado), quando floriu a grande amendoeira de flores brancas?
Floriu para mim, suponho. Gostei muito.
Encostei-me ao seu tronco e olhei para cima.
Ela arredondou-se como uma grande esfera, como uma cúpula de flores brancas e riu-se de gozo.
(...)
Depois disso floriu a amendoeira das flores cor-de-rosa.
Mas essas, as flores cor-de-rosa, correram por aqui e por ali por entre as ramadas das oliveiras para me fazer rir, para que eu as procurasse uma a uma por entre as ramadas das oliveiras.
Eram flores para os olhos e para o riso, enquanto as outras, as flores brancas da grande amendoeira, eram flores tranquilas para o conjunto de ver, de respirar, de amar as coisas em volta, mesmo as coisas que não tinham que ver com a grande amendoeira e a sua cúpula de flores brancas."
(excerto de Árvores de Domingo, textos e ilustrações de Maria Keil, ed. Horizonte).
Sábado, 22 de Janeiro de 2005
Este é o gesto mais importante do dia
Com a mão direita afastar o cabelo da nuca, para apanhar sol no pescoço.
Acumular calor até ser um corpo que arde no Inverno.
(Ceder à natureza intensa das
coisas de Janeiro.)
Como se chama àquelas pessoas que repetem sempre o mesmo erro?
O meu erro é este: de vez em quando, ceder à facilidade de ir ver um filme a cinemas de pipoca e teenagers de 6ª à noite, fiando-me no facto de, pela descrição, não ser o tipo de filme que eles irão ver. O erro passa a ser mais grave quando, como em Perto Demais, o elenco inclui Julia Roberts e Jude Law. Passei duas horas a ouvir comentários como 'Que coisa idiota!', 'Que nojo!', 'Não estou a perceber nada...', 'Mas este outra vez?', 'Bem, que parvoíce! Que filme horrível!', com uma breve pausa de 5 minutos quando pedi ao bando que se sentara atrás de mim que se calasse. A miúda ficou a olhar-me de boca aberta (uns 8 cm de diâmetro e indignação), depois calaram-se, depois esqueceram. É lamentável que as pessoas não estejam mais habituadas a que lhes peçam que se calem, e não me refiro apenas ao cinema. Percebi depois que não tinham arranjado bilhetes para o Oceans' Twelve. Estavam a detestar o filme, mas não saíam porque queriam saber o fim. Tinham a vaga esperança de uma redenção final após duas horas de narrativa elíptica, cruzada, bem construída, das coisas que não se explicam. A esperança de o amor ser uma coisa simples, os traidores serem castigados, as decisões definitivas, de os amores infinitos serem para sempre. Até com a música do filme embirraram. Houve exclamações de choque e revolta nas cenas mais eróticas, na crueza - ou simplesmente clareza - dos diálogos que envolviam sexo, mesmo quando não era de sexo que se falava.
Não voltarei a cometer o mesmo erro. Não voltarei a cometer o mesmo erro. Digo eu.
Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2005
Modo citação: Cesare Pavese, Diálogos com Leucó
ÉdipoMas então de que valem os deuses?
TirésiasO mundo é mais antigo do que eles. Já enchia o espaço e sangrava, gozava, era o único deus - quando o tempo ainda não havia nascido. Reinavam então as próprias coisas. Aconteciam coisas - agora, através dos deuses, tudo é feito palavra, ilusão, ameaça. Mas os deuses podem alterá-las, aproximá-las ou afastá-las. Podem igualmente não tocar, não mudar as coisas. Chegaram tarde demais.
ÉdipoE logo você, um sacerdote, diz isso?
TirésiasSe não soubesse nem isso, não seria sacerdote. Observe um rapaz que toma banho no Asopo. Manhã de Verão. O rapaz sai da água, torna a entrar,
mergulha e volta a mergulhar. Passa mal e se afoga. O que têm os deuses a ver com isso? Deverá atribuir o seu fim aos deuses ou então ao prazer desfrutado? Nem uma coisa nem outra. Aconteceu algo - que não é bom nem mau, alguma coisa que não tem nome -, depois os deuses lhe darão um nome.
Édipo
E dar nomes, explicar as coisas, parece-lhe pouco, Tirésias?
TirésiasVocê é jovem, Édipo, e como os deuses que são jovens, você mesmo torna claras as coisas e dá nome a elas. Ainda não sabe que embaixo da terra existem rochas e que o céu mais azul é o mais vazio. Para quem nada vê como eu, todas as coisas são um violento choque.
(excerto do diálogo Os Cegos, de Diálogos com Leucó, ed. Cosac & Naify, trad. Nilson Moulin)